O exame físico: a arte esquecida

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DOI:

https://doi.org/10.61443/rto.v23i1.426

Resumo

O avanço tecnológico tem modificado a prática médica nos últimos anos. Dentre as melhorias elencadas pelos entusiastas desse progresso, destacam-se: a possibilidade de atendimento à distância de pacientes; o alastramento do uso do prontuário eletrônico para documentação e armazenamento das informações numa base de dados; uso de softwares e da robótica nas cirurgias ortopédicas para aprimorar a precisão; o uso da impressão 3D; da realidade virtual e mista aumentada na área do ensino.

No entanto, essa “evolução” não tem sido verificada na qualidade do atendimento humanístico referente aos pacientes. Na maioria dos hospitais, as consultas são realizadas de forma rápida (entre 5 e 10 minutos, no máximo), SEM a execução do exame físico do médico junto ao paciente. Essa “pressão” por números, é promovida por gestores e fontes pagadoras, que visam alcançar outras finalidades, sem levar em consideração a relação médico-paciente e o grau de resolubilidade das afecções ortopédicas.

Os efeitos colaterais dessa sistemática implementada nos serviços de saúde tem acarretado uma solicitação excessiva de exames de imagem, com desperdício de recursos financeiros, propósitos disparatados e insatisfação crescente dos pacientes. Outra consequência é a falta da realização do exame físico, para possibilitar que a meta dos atendimentos seja alcançada no tempo determinado e não gere contestações com os administradores. Nesse sistema tecnocrático, os números valem mais que a pessoa humana.

Neste cenário, os médicos realizam o atendimento dotados de celulares modernos, repletos de aplicativos e em hospitais municiados com computadores programados com dispositivos de última geração. A relação humana e o exame físico ficam relegados para um segundo plano e muitos pacientes não são sequer tocados durante a consulta médica. A desconexão médico e paciente tem crescido, com diminuição da satisfação e resolução dos problemas apontados pelos pacientes.

Outro fator, que tem colaborado para esse descalabro, é a redução da carga horária dos alunos e residentes em contato com os pacientes. O prejuízo primário é do próprio médico em formação, devido à inexperiência e menor exposição aos casos rotineiros e mais complexos. A judicialização; a falta de vocação; as mudanças culturais, comportamentais e o foco no ganho financeiro tem deteriorado a formação humana e científica dos médicos. Alguns acreditam, que apenas vídeos e cursos on-line são suficientes. Os “imediatistas” buscam atalhos para alcançarem intentos e projetos pessoais, de forma
rápida e lucrativa, reduzindo o ônus da labuta diária e do longo caminho do aprendizado sólido.

A arte do exame físico vai sendo esquecida e a máxima da “clínica é soberana” está sendo perdida pelas gerações recentes. O desenvolvimento tecnológico vertiginoso, a mercantilização da saúde e a mudança acelerada dos costumes, têm propiciado a corrosão das bases elementares para o atendimento do paciente com qualidade. A atenção e o cuidado humanizado devem ser prioritários e nunca olvidados em prol de máquinas, algoritmos e programas de computador com
viés quantitativo e insensíveis às necessidades das pessoas. Destarte, Hipócrates ensinou: “A arte é longa, mas a vida é breve”.

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Publicado

2023-10-06

Como Citar

1.
Carvalho RT de. O exame físico: a arte esquecida. RTO [Internet]. 6º de outubro de 2023 [citado 24º de fevereiro de 2024];23(1):1-2. Disponível em: https://tecnicasemortopedia.com.br/revista/article/view/426